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Santuário Sagrado Coração de Jesus Fortaleza - Ceará

A primeira irmã que o Senhor nos deu

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Clara, cheia de luz

Escrever sobre a pessoa de Francisco e não mencionar Clara seria uma falta grave pela sua importância na vida de Francisco e mais tarde na vida da Ordem. Assim sendo, reservei este espaço para escrever algo sobre Santa Clara afinal de contas estamos nos preparando para celebrar o oitavo centenário do seu carisma no mundo.

Assis, a cidade iluminada, ou marcada com uma experiência de luz. A cidade iluminada sobre a montanha. É assim que essa cidade tem sido lembrada desde Dante Alighiere, o poeta italiano, que morreu em 1321. Isto podemos aplicar também em Clara de Assis. Seu nome significa brilhante, luminosa ou simplesmente o que o seu nome diz: Clara.

Certamente, ao olhar a beleza das estrelas à noite e durante o dia a pureza, a transparência da água que corria para o mar Francisco pensava em Clara. Basta lermos o cântico do irmão sol em italiano antigo para percebermos essas intuições.  A biografia de Clara e a sua bula de canonização nos revelam os exageros dos biógrafos das primeiras horas, em desenvolver predicados para o seu nome. Apreciemos o que nos diz a bula de canonização:

Clara, preclara por seus claros méritos, clareia claramente no céu pela claridade da grande glória, e na terra pelo esplendor dos milagres sublimes. Brilha aqui claramente sua estrita e elevada religião, irradia no alto a grandeza de seu prêmio eterno, e sua virtude resplandece para os mortais com sinais magníficos.

A esta Clara foi dado o título do privilégio da mais alta pobreza; a ela é dada nas alturas como recompensa uma profusão inestimável de tesouros; os católicos demonstram para com ela plena devoção e uma honra imensa. Esta Clara foi distinguida aqui por suas obras fúlgidas, esta Clara é Clarificada no alto pela plenitude da luz divina. E a maravilha de seus prodígios estupendos declara-a aos povos cristãos.

Ó Clara, dotada de tantos modos pelos títulos da claridade! Foste clara antes da tua conversão, mais clara na conversão, preclara por teu comportamento no claustro e brilhaste claríssima depois do curso da presente existência! O mundo recebeu de Clara um Claro espelho de exemplo: por entre os prazeres celestiais, ela oferece o lírio suave da virgindade. E na terra, sentem-se os remédios manifestos dos seus auxilio. (BC 2-6)[1]

 A própria Clara deve ter tido consciência do significado de seu nome. Em carta a Inês de Praga a mesma, em tom de brincadeira, faz menção a este simbolismo da luz  para resgatar sua irmã e grande amiga da escuridão que a colocava em perigo. Vejamos:

Quem vai me dizer para não exultar com tão admiráveis alegrias? Por isso, exulte sempre no Senhor (cf. Fl 4,4) também você querida. Não se deixe envolver pela amargura e desânimo senhora amada em Cristo, gozo dos anjos e coroa (Fl 4,1) das irmãs. Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória (Hb 1,3). (3In 9-12).[2] 

As palavras confortadoras de Clara à sua irmã nos deixa pensar que Inês vivia em dias de escuridão e passava por um sentimento de nulidade profundo levando-a  a uma experiência melancólica e ao obscurecimento da alma. Clara, para animar sua irmã e agora companheira na fé faz uso da ideia paulina que nos diz que nossa vida representa um lento crescimento para luz, ou seja, nossa vida que se desdobra para uma  luz sempre maior.

E esse processo é perceptível da vida de Clara. Ela sente-se iluminada por Deus, a luz de Deus chegou ao seu coração assim como aconteceu a Francisco para que a mesma pudesse seguir os passos de Francisco. (…) mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco não só depois da sua conversão, mas também quando estávamos na miserável vaidade do mundo. (TestC 7).

[1] Bula de Canonização de Santa Clara. in Fontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis: Vozes, 2004. p.1735.
[2]Terceira Carta a Inês de Praga. in Fontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 1708.

Frei Renê
Reitor do Santuário Sagrado Coração de Jesus