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O Cristo de Francisco – parte 01

Publicado por Agência Paróquia na Net em 6 de julho de 2016

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Quando falo “o Cristo de Francisco”, não quero falar de um Cristo diferente daquele real e verdadeiro, daquele que conhecemos através da nossa fé cristã. É moderno por parte de muitos incrédulos, há mais de um século, que cada qual tenha o “seu” Cristo, que faça o seu próprio Cristo, que cada qual faça do seu Cristo real o que quiser, ou seja, retira-se, acrescenta-se fazendo uma combinação daqueles elementos a partir das suas aspirações individuais. Com certeza Cristo em sua plenitude inaudita, possuidor de todos os bens naturais e sobrenaturais, possui uma riqueza em aspectos, que permita que se encontre aí o que lhe serve. Mas se deve aceitar como cumprimento de princípio o Cristo por completo na íntegra. A consideração de aspectos especiais não pode nos levar à negação da fé católica, por menor que seja tal aspecto.

Esta integridade da fé é o que precisamente caracteriza a ideia de Cristo Jesus, como a teve São Francisco. E os filhos de tão Santo Pai, cumpre adotar antes de tudo este mesmo espírito amplo e universal, verdadeiramente católico. Talvez não haja uma ideia ou uma consideração de Cristo que tanto se aproxime da totalidade e da integridade do real, quanto a de São Francisco. Talvez não haja outratão católica quanto a dele.[1]

São Francisco dá igual importância a Cristo em seus diferentes aspectos, diferentemente de alguns fundadores de ordens, como podemos ver na história da Igreja que priorizam somente um aspecto, por exemplo, “Cristo-Sacerdote”, “Cristo-Pregador”, “Cristo-Bom-Samaritano” e “Cristo-Sofredor”. Isso só foi possível graças aos dons que Deus lhe deu que neste sentido todo católico. Assim sendo, São Francisco sefez-se imitador de Cristo, em tudo, contemplando-o na pobre gruta de Belém, na sua dolorosa caminhada ao Calvário até a sua ressurreição gloriosa. Tudo isso, por meio de sua vida oculta, nos trabalhos, nas orações, e mais ainda em sua vida de amor aos irmãos, ao próximo e à pregação.

E contudo, pode-se falar dum aspecto especial sob o qual São Francisco prefere considerar a Cristo. Os estudiosos da piedade cristã com razão o consideram como expoente máximo e promotor principal duma forma de piedade, iniciada na Idade Média. Os séculos antes de São Francisco se haviam empolgado com o “Kyrios” sem dúvida, e São Francisco se cansou de chamá-lo de Senhor, de “Dominus”. Via nele seu rei e deu um impulso inteiramente novo e mais poderoso à teologia da realeza de Cristo. Mas numa direção diferente da que vinha sendo seguida até aí. Não o Cristo como está representado nos ícones bizantinos, nem nos admiráveis mosaicos das antigas basílicas, que empolga. É o Cristo mais próximo dos corações sem quebra de sua transcendental sublimidade.[2]

O contexto histórico que cerca Francisco é o das cruzadas, como já sabemos. Provavelmente, muitos dos que viveram nesse tempo estavam iludidos esperando viverem nestas empresas de guerras, grandes e intensos momentos de glória ou simplesmente momentos de aventuras, porém as cruzadas eram tidas como grande evento religioso, nelas estavam a esperança da Igreja. São Francisco via nas cruzadas um dos grandes feitos do cavaleirismo do seu tempo “mas transfiguradas pela perspectiva sobrenatural e que via o próprio cavaleirismo. Com os defeitos das cruzadas Francisco não se ilude, mas também não favorece no sentido armamentista. Era a favor de cruzadas de mártires, de conversão, de sangue rubro que pudessem com seu testemunho banhar o solo muçulmano consequentemente as almas que desconheciam a Cristo. Dessa forma era que Francisco queria recuperar os lugares santos da Palestina por onde Cristo passou.

Com este zelo e pela transformação profunda e pela sobrenaturalização intensa do espírito de Cruzada, como se operou nele, São Francisco se tornou o principal arauto da piedade ao Cristo-Homem, sem prejuízo da verdadeira fé. É a São Francisco e à sua Ordem que o mundo ocidental e a Igreja toda deve o surto enorme que tomou a piedade ao Cristo-Homem, perfeitamente correta do ponto de vista dogmático, indizivelmente eficaz e santificação das almas. Nada de diminuições de Cristo, nada de coartações, nada de divisões – mas o Cristo todo, com a devida atenção a todos os seus aspectos, também aos aspectos – nisto estava a novidade – do Cristo-Homem. É o que caracteriza a piedade franciscana, a imagem de Cristo na mente de São Francisco. A sua relação a este Cristo é do cavaleiro dedicado, generoso, obediente, zeloso, fiel, ardoroso, cheio de amor diante de seu soberano. Cavaleirismo verdadeiramente ideal, sem laivos de amor vicioso, sem mania e aventura e de empresa temerária. Cavaleirismo sério, sincero, sobrenatural, como devia ser todo cavaleirismo.[3]

 

[1] KOSER, Frei Constantino. O Pensamento Franciscano. 2ª Ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 1998, p. 35.
[2] IDEM, 1998, p. 36.
[3]KOSER, Frei Constantino. O Pensamento Franciscano. 2ª Ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 1998, p.37.

Frei Renê
Reitor do Santuário do Sagrado Coração de Jesus