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O Cristo de Francisco – parte 02

Publicado por Agência Paróquia na Net em 18 de julho de 2016

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Para entender a figura de Cristo nas Fontes Franciscanas não devemos procurar somente uma doutrina cristológica, mas uma reflexão dos aspectos de Cristo nela presente que foram vitais para Francisco em sua decisão de fazer discípulos de Cristo, ou seja, aquilo que mais evidencia Cristo, como único caminho e mestre.

Na cristologia do seguimento, por exemplo, Francisco conhece Cristo por meio daquilo que o Senhor operou em sua vida, por isso ele resolve segui-lo. A cristologia de Francisco está na sua história de vida, ou seja, em seus ensinamentos, na manifestação da vida de cada um daqueles que creem nele, no desejo de que o plano de Deus seja possível na sociedade em que vivem e no mundo “atestado por Jesus”. Para Francisco a “seqüela” de Cristo é a vida expressa de maneira concreta assim como fizeram os apóstolos, (cf. Mt 19,21) deixando tudo (cf. Mt 19,27). No discurso deste seguimento do Cristo fazem-se presente duas dimensões: a mística da imitação e a pública da imitação. Na primeira destaca-se o conhecimento que Francisco tinha de Cristo a partir de sua vida espiritual e cristã.

Cristo era tudo para Francisco. Com os Atos do bem-aventurado Francisco e de seus companheiros e com todo o filão interpretativo da hagiografia franciscana que neles começa a precisar-se, podemos quase dizer que, em Francisco, sua doutrina sobre Cristo (cristologia) se converte em biografia e por isto foi definido “como outro Cristo”.[1]

Em Francisco nós encontramos o Cristo como origem e raiz de tudo. Cristo para ele é aquele que o chamou (cf. 1Cel 17; 2Cel 6; 11:LTC 25;). Na crise vocacional Cristo torna-se para Francisco o seu conselheiro (cf. LM 3,1 ; LTC 25; LP 9). Cristo passa a ser na vida de Francisco o único e maior fundamento (cf. 1Cel 18; LP 37). Para Francisco não existe no mundo modelo e sacramento de vida mais perfeito a ser seguido do que o de Cristo (cf. 2Cel 26). Cito uma dessas muitas e belas passagens que encontramos nas fontes relativas a São Francisco sobre Cristo para que se possa perceber a relação íntima de Francisco com Cristo e desse contato como através desse contato íntimo surge em Francisco uma cristologia toda especial.

Coisa admirável e inaudita em nossos tempos (cf, Jo 9,32)! Quem fica estupefato diante destas coisas? Quem alguma vez concebeu semelhantes coisas? Quem duvida que Francisco a quem o Cristo fala como novo inaudito milagre do madeiro da cruz – quando não havia ainda desprezado completamente o mundo exterior – apareceu crucificado ao voltar a pátria? Então a partirdaquela hora, a alma dele se derreteu, assim que o amado lhe falou (cf. Ct 5,6). Pouco depois, o amor do coração se manifestou por meio das chagas do corpo. – Desde então, não consegue, por esta razão, conter o pranto, chora também em alta voz a paixão de Cristo, como que sempre colocada diante de seus olhos. Enche de gemidos os caminhos, não admite qualquer consolação ao recordar-se das chagas de Cristo. Encontrou como um amigo íntimo tendo-lhe exposto a causa da sua dor, o amigo imediatamente é provado a amargas lágrimas (2Cel 6;11).[2]

A segunda mostra-nos o conhecimento do que o Pai Seráfico tem em Cristo, revelando a paternidade divina, cheio de consequências para a nossa vida social. É na pessoa de Cristo que Francisco encontra a revelação da paternidade universal de Deus.

“A novidade absoluta da revelação de Deus feita em Cristo não é tanto o fato de ter ele designado Deus como Pai, misericordioso, bom e terno para conosco, mas recorrer ao Pai celeste só tem sentido no momento em que a situação que vivemos exija uma ruptura até mesmo com o pai terreno, com hábitos familiares e sociais isto é com todos os interesses egoístas que nos envolvem. A vida segundo o Evangelho de Jesus Cristo, vida de caridade, é impedida por uma situação que nos mantem como prisioneiros. Assim Francisco aprende de Jesus o verdadeiro semblante do Deus que ele nos ensinou a chamar de Pai. Basta lembrar aqui o momento em que Francisco se despoja de suas vestes diante do bispo de Assis.[3]

São Francisco em sua vida passa a ter grande compaixão pelo Cristo-Homem, o Cristo crucificado cheio de dores e com ele passa também a sofrer. E dele não só surge a força para suportar tal sofrimento como também a energia necessária para ascese rigorosa e indispensável a sua santificação e mais, ainda encontra em meio ao sofrimento espaço para agradecer a Deus por experimentar tão doloroso sofrimento. Toda essa experiência levou Francisco ao extremo amor por Cristo a ponto de pedir a Deus para experimentar esses sofrimentos no corpo e na alma, pedido esse atendido e manifesto em Francisco na impressão das chagas em seu corpo.

…Esta oração, atendida de um modo inesperado na impressão das chagas, trouxe ao santo dois anos de torturas ininterruptas: os cravos nas mãos e nos pés, cravos em chaga viva, lhe causaram dores e incômodos inimagináveis. Tamanhas dores que o Santo afinal permitiu que fossem tratadas por Frei Leão, menos nas sextas-feiras.

Deus permitiu ainda que com a cegueira e as aflições dos irmãos rebeldes caísse num abandono espiritual, parecido, com o experimentado por Cristo na Cruz… Suas Chagas eram brasas ardentes que o torturavam dia e noite; seus olhos, quase extintos, o atribulavam insuportavelmente…[4]

São Francisco não imitou somente a dor de Cristo mas também aquilo que demais perfeito ele tinha, o modo de vida. Isso tudo foi possível pela sua “clarividência sobrenatural” da qual Deus o dotara.

Ele se aproximou de Jesus na riqueza e na complexidade de seu mistério, contemplando-o, invocando-o e nomeando-o ao mesmo tempo em sua dimensão divina “alta”, e em sua dimensão “baixa” humana. Assim, Jesus Cristo é o verbo, o Filho do Pai, o Senhor e o Criador, o Unigênito do Pai, o Redentor, o Salvador, divino; ao mesmo tempo é também verdadeiro homem de carne frágil, pobre, humilde, peregrino, hóspede, servo de Deus e do homem em sua vida, paixão e morte; o orante e intercessor dos homens diante do Pai, seu pastor e bispo que um dia na paixão com despojamento radical da sua vontade, deixou tudo nas mãos de Deus Pai para realizar a salvação dos homens.[5]

A presença de Cristo na vida de Francisco era intensa, intensa também na vida dos seus primeiros frades e na vida da ordem daquele momento e era assim que Francisco desejava que fosse no futuro e foi assim que ele desejou viver com Cristo, no seguimento e na imitação do Espelho da Perfeição aquele que revela a paternidade universal de Deus aos homens.

[1] CAROLI, Ernesto Org. Dicionário Franciscano. Petrópolis, RJ, Vozes, Cefepal, 1993, p. 354.
[2] Segunda Vida de Tomás de Celano (2Cel), in Fontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis, Vozes, 2004, p. 308.
[3]CAROLI, Ernesto Org. Dicionário Franciscano. Petrópolis, RJ, Vozes, Cefepal, 1993, p. 365.
[4] KOSER, Frei Constantino. O Pensamento Franciscano. 2ª Ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 1998, p.39.
[5] MERIÑO, José Antônio & FRESNEDA, Francisco Martinez (Orgs). Manual de Teologia Franciscana. Petrópolis, RJ, Vozes, 2005, pp.164-165.

Frei Renê
Reitor do Santuário do Sagrado Coração de Jesus