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São Francisco de Assis: o Ideal de Perfeição Através da Pobreza

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A pobreza alicerce da ordem franciscana

Tudo começou fortemente em 1209 em sua viagem a Roma na intenção de falar com o Papa Inocêncio III, sobre o seu nobre ideal de vida, o de viver o Evangelho com os seus primeiros companheiros seguindo o exemplo do Cristo Pobre. Assim nos diz o seu primeiro biógrafo:

Vendo o bem aventurado Francisco que o Senhor lhe aumentava de dia para dia o número dos que o seguiam, escreveu para si e seus irmãos, presentes e futuros, com simplicidade e breves palavras, uma norma de Vida ou Regra, composta de expressões do Evangelho, a cuja perfeita observância aspirava de contínuo.[1]

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Para São Francisco o Evangelho não era somente palavras mas, Jesus seu testemunho em palavras. O ideal, o ardente desejo, de seguir o Cristo pobre, humilde radicalmente, teve que enfrentar muitas reservas e desconfianças da cúria papal. Mas, Francisco com sua nobreza espiritual enfrentou e superou todas essas dificuldades com sua coragem e persistência. A ajuda e intervenção do cardeal conseguiu convencer a cúria papal de que o ideal almejado por Francisco não era nada mais do que observar aquilo que estava escrito no Evangelho. Então Francisco consegue o consentimento do Papa.[2]

Como podemos ver aqui de maneira abreviada o imenso desejo de Francisco de querer viver pobre como Cristo por meio do Evangelho e de todos os outros que também assim queriam viver foi muito difícil. Porém mais complicado e difícil seria se isso tivesse acontecido há vinte cinco anos atrás. Pois no sínodo de Verona em 1184 o papa Lúcio III lançou anátema contra todos os movimentos religiosos reformistas e com tendência pauperista o que na época eram a grande maioria, deixando-os assim sob forte suspeita de heresia.[3] O que não ocorria no tempo de Francisco com o seu grupo e de outros.

[...] Ele não pretendeu reformar a Igreja, não criticou a Igreja e os ricos, pediu na Regra que seus discípulos “não desprezem nem julguem e os homens que virem usar vestes delicadas e coloridas, tomar alimentos e bebidas finas, mas antes, julgue e despreze cada qual a si mesmo. (Regra 2, 17).[4]

Deve ficar claro que o sonho de Francisco não era o de uma Igreja de pobres, assim sendo ele também não fundou uma ordem para pobres socialmente falando. Mas, seu desejo era o de viver segundo o que diz o “santo evangelho”, humilde e pobre voluntariamente seguindo o exemplo do Cristo pobre, ou seja, na escala social de seu tempo tanto ricos como pobres voluntariamente podiam e deviam tornar-se pobres assim como Cristo. Com relação a sua fraternidade Francisco demonstrava certo radicalismo que não deixa de indiretamente ir de encontro a algumas posturas da Igreja e do mundo daquele tempo.

Quando falamos de pobreza logo nos vem a lembrança de São Francisco, pois o tempo encarregou-se de dar-lhe vários epítetos como por exemplo: “Il Poverello”, ou seja o pobrezinho. É por causa dele que a Ordem dos Frades Menores é conhecida como sendo uma Ordem de pobres. A pobreza franciscana esse termo não é unívoco tanto pode fazer referência a São Francisco como à ordem a que ele deve sua origem.



[1]1Cel Primeira Vida de Tomás de Celano. in Fontes Franciscanas. Braga. 2ª ed. Editorial Franciscana, 1994.  32, p.218.
[2]As desconfianças da cúria papal não eram à toa pois outros movimentos que defendiam a vida pobre surgiam nesse tempo isso até certo ponto tinha que ser observado com muito cuidado, já que esse ideal mesmo fundamentado no Evangelho para muitos estava cheio de muita radicalidade. Por exemplo o mesmo Inocêncio III que aceitou o jeito de Francisco e seus companheiros viverem também acolheu um outro defensor da vida pobre segundo o Evangelho em 1208 foi Durando de Huesca e um ano depois de Francisco acolheu  na Igreja o movimento pauperista de Bernardo Prim.
[3]Podemos citar aqui como exemplo os Cátaros e o movimento dos Pobres de Lyon liderado por Pedro Valdo.
[4]SILVEIRA,ofm Idelfonso. Senhora Pobreza. Petrópolis: Vozes, 1997. p.23.

Talvez, hoje aos olhos da ciência econômica a pobreza de que tento falar não seja bem compreendida, pois a pobreza dos nossos tempos é vista por um aspecto miserável, deplorável e injusto. Ao contrário do que se pensa hoje com relação a Pobreza, o Pai seráfico a chamava de Senhora, Esposa, Dama, por isso que sempre a encontramos escrita com o P maiúsculo como se referisse a uma pessoa e não a uma virtude.

[...] A pobreza foi amada, buscada, refugada, etc. Dentro da mesma linguagem figurada, o SacrumCommercium, representa-a como uma Senhora nua, sentada no trono da sua nudez no alto de uma montanha, e depois descreve-a dormindo nua com a cabeça apoiada numa pedra perto de Francisco e seus companheiros símbolo cru e forte, mas de grande valor expressivo [...].[5]

A pobreza parece estar no alicerce da ordem franciscana[6] exatamente porque ela acompanha Francisco em sua admiração pelo Cristo pobre. Francisco percebe o quanto a pobreza era estimada por Jesus e mais ele observa que ela estava sendo desprezada e procura desposá-la com um amor todo especial e eterno. Francisco apaixona-se pela pobreza a ponto de deixar pai e mãe e tudo aquilo que pudesse afastá-lo dela. Quis ser seu esposo, e abraçou-a até a morte. Para Francisco a pobreza era o caminho para a perfeição assim exortava e aconselhava a seus filhos.[7]

O único fundamento da Pobreza Franciscana em qualquer condição social de nossos frades é o desejo de seguir a Cristo, que em sua riqueza se fez pobre juntamente com sua Mãe e escolheu a companhia da pobreza.

A pobreza assim compreendida é fonte de alegria porque o servo sente-se feliz em parecer-se com seu Mestre. Ela é fonte de alegria e de confiança, pois ainda que sejamos pequenos e pobres e não tendo direito a nada, nós somos vestidos, alimentados e cumulados, pelo Pai celeste, com as belezas de sua criação.[8]

Podemos dizer que a grande descoberta de Francisco foi o Evangelho e que a partir dessa descoberta ele esforça-se por vivenciá-lo pessoalmente; mais tarde é que o dá como regra de vida a seus frades. Mais do que simplesmente querer viver o Evangelho, Francisco deseja também estar em comunhão com a Igreja, pois o evangelho nos é dado por ela e essa vivência dele e dos seus se dá sob a autoridade da Igreja. Para tanto deles com relação a Igreja é exigido deles uma atitude de fé, de obediência para com o Papa e os bispos os seus pastores e também aos padres pois esses são os ministros da eucaristia.

Assim, estabelecendo como sua pequena fraternidade inicialmente deveria viver, Francisco pede na Regra aos seus frades que se esforcem para seguirem o exemplo de humildade e pobreza de Cristo. Lembra ainda que aquilo que o mundo possa lhes oferecer não devem ter nada, a não ser aquilo que o apóstolo[9] indica: ter o que comer e o que vestir isso lhes basta.[10]

São Francisco morreu em 1226 e deixou como discípula e herdeira a ordem religiosa a que deu o nome-programa de Ordem dos Irmãos ou Frades Menores. Ainda em vista do santo, tinha de três a cinco milhares de seguidores, sem contar as discípulas de S. Clara, que fora fiel discípula dele, e os leigos da Ordem Terceira, também ligada a ele. Tais institutos religiosos têm, portanto, mais de setecentos e cinqüenta anos. Esta longa história está marcada por muitas peripécias. Uma das mais conhecidas é o zelo com que os antigos discípulos defenderam e divulgaram o nome de São Francisco com Il Poverello e como lutaram, até de modo dramático, pela herança e definição da pobreza por ele legada. Houve quem sabe unilateralismos; tal luta parece uma novela ou romance[11] de amor; de que foram protagonistas S. Francisco e discípulos de várias gerações e a misteriosa Pobreza personificada por ele como “Senhora” e por escritores como sua Esposa, vezes outras como Senhora e até como Mãe. A misteriosa personagem foi amada e buscada também por outros, mas sem ditas personificações, sem linguajar romanesco [...].[12]

Resultado de imagem para pobreza de são franciscoDepois da morte de são Francisco, alguns discípulos seus procuravam a Senhora Pobreza, aquela tão amada pelo seu mestre. Eles também a amam e a querem na sua total ou quase nudez. Estes são os idealistas, que entraram em confronto com um grupo mais realista esses cobriram parte da nudez da Pobreza e faziam concessões à experiência concreta do dia-a-dia. Para muitos se a Pobreza perde parte de sua nudez ela se torna palavra vazia. As divergências a respeito da pobreza na ordem Franciscana durante certo tempo ganhou um rosto de luta, contendas, sobretudo ao redor da sua “menor” ou “maior” nudez que a estes tinha sido confiada por São Francisco. Na verdade todos estes querem e lutam pela pobreza mas discordam da sua qualificação e do tamanho das vestes de sua bem amada. Podemos então nos perguntar será se estes entenderam o verdadeiro significado da Pobreza, Senhora e amada por São Francisco? Fica claro aqui que eles lutaram por causa do significado real da pobreza.
A literatura que assim se expressa assemelha-se mesmo a romance de amor. Com utopias, com idealismos exagerados, com visões unilaterais,com mau trato dos rivais, com intransigências apaixonadas, com destempero de linguagem, com heroísmos e generosidades.[13]


[5]SILVEIRA,ofm Idelfonso. Senhora Pobreza. Petrópolis: Vozes, 1997p.14.
[6]Toda a ordem está construída sobre a pobreza se ela não permanecer sólida, se essa um dia vir a faltar tudo ficará completamente destruído.
[7]2 Cel Segunda Vida de Tomás de Celano55,inFontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis, Vozes, 2004. p.338.
[8]PLENTZ, ofm frei Urbano. Itinerário Franciscano. Petrópolis: Vozes, 1973. p. 52.
[9]Francisco refere-se ao apóstolo São Paulo 1Tm 6,8.
[10]Regra não Bulada, IX,in Fontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis: Vozes, 2004. p.172.
[11]A primeira vista parece esquisito esse termo. Mas, para aqueles mais familiarizados com a literatura franciscana sobretudo, ele é bastante comum especialmente no século XIII.
[12]SILVEIRA Ofm Idelfonso, Senhora Pobreza. Petrópolis: Vozes, 1997, p.13-14.
[13]SILVEIRA Ofm Idelfonso, Senhora Pobreza. Petrópolis: Vozes, 1997, p.15.